terça-feira, 18 de outubro de 2011

09 meses: uma vida e muitas pedrinhas distribuídas ao longo do caminho.

17 de outubro de 2011.
 
Até o dia 17 de dezembro de 2010, meus dias “17” eram comemorados, por mim mesma, por ser o dia do meu aniversário!
Mas agora não. Agora quando olho no calendário e vejo essa data penso em outra coisa. A contagem começa no mês de janeiro...01, 02, 03, 04, 05, 06, 07, 08, 09!
Nove meses que tive o diagnóstico.
Poxa, perdi até o meu dia...não podia ter sido no dia 16? Ou 18? Não, né?
Hoje voltando do fórum peguei um taxi e devido ao trânsito caótico da nossa cidade, essa voltinha me rendeu um bom papo com o taxista.
Já não é a primeira vez que acabo comentando que passei por uma operação e após alguns minutos de conversa eles acabam perguntando a razão da cirurgia.
Como não estava num dia muito bom, inclusive devido ao motivo que provavelmente seria a pauta da conversa, falei: “Ahhh...eu estava com um probleminha no intestino...aí né...já viu!!!” Tentei não prolongar o assunto. Mas depois de alguns segundos sem obter resposta alguma, me rendi e acabei contando os detalhes.
Para a minha surpresa, ao final da conversa, eu estava mais calma e ele provavelmente estava contando os segundos para chegar na sua casa e dar um longo abraço no seu filho de 20 anos...!
Sempre acreditei, desde pequena, que guardar os meus problemas e minhas angustias não me faria bem e hoje, mais do que nunca, sou a prova de que quando temos um saco, daqueles iguais ao do Papai Noel, só que cheio de pedrinhas (as pedrinhas...) e a missão é carregá-las, a melhor saída é dar uma pedrinha para cada pessoa que se importa e se disponibiliza a fazer parte dessa tarefa.

Lógico que eu não vou sair distribuindo pedrinhas por aí, mas também se me vejo numa situação em que tem alguém querendo dividir esse peso comigo, não hesito em compartilhá-lo.
Já ouvi muitas pessoas dizendo que não contam seus problemas, pois acreditam que não há solução para aquilo e então, para que contar?
Muitas vezes me aconselharam a não dizer a verdade sobre certo assunto, sim, sobre um determinado assunto, e como eu era pequena, não tinha certeza se eu estava certa ou se as pessoas que gostavam de mim falavam aquilo para o meu bem.
A verdade é que sem guardar, eu já sofro além do normal. Agora eu paro e penso: E se eu tivesse regado aquela sementinha que tentaram plantar em mim?
Com certeza eu não estaria tão bem como eu estou, não teria encarado e superado da forma tão incrível que fiz.

Conto sim! Conto para a manicure, conto para o taxista, conto para quem quiser ouvir, quem quiser carregar uma pedrinha. Conto para vocês!!! E é por isso que o título da matéria sobre o blog que saiu na revista GLOSS (ao lado) retrata exatamente o que eu sinto em relação a toda a força que encontrei aqui: ESCREVER PARA SUPERAR!
Contar para superar, orar para superar, rir para superar, e por que não, gritar para superar!

Penso que essas pedrinhas, para mim são pesadas e difíceis de carregar, mas no momento momento que eu entrego a alguém, entrego uma pedrinha preciosa, colorida e brilhante que ao mesmo tempo em que me alivia, serve de reflexão e para quem a recebe.

Portanto, obrigada a todas as centenas de pessoas que carregaram uma pedrinha minha!
Elas são preciosas e em algum momento de suas vidas, brilharão trazendo a esperança.***

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Quando o Papai do Céu chama.

Estou em estado de choque.
Acabamos de perder uma pessoa incrível, S. J.
Lógico que ele não foi o primeiro e nem será o último, mas a notícia me abalou. Esses dias vi a foto dele em alguma revista, aquela foto que ele está de bermuda e camiseta preta.
Magro, magro, magro. Com cara de quem não está mais conseguindo vencer a doença.
Aquilo acabou comigo.
Para falar a verdade ontem eu estava conversando com o meu namorado no telefone, antes de dormir e contei que eu estava muito feliz como há muito tempo não ficava. E então, me emocionei e comecei a chorar.
Um rápido filme passou na minha cabeça: o médico dando a notícia da doença, os milhares de exames, as injeções na barriga, a retirada e as complicações dos óvulos, o porth-oh-cath, radio, quimio, cirurgia, bolsinha, cirurgia de novo,.....AAAAAAHHHH!!!!
Quanta coisa.
Se eu soubesse que teria que passar por tudo isso, acho que teria desistido no dia 17 de janeiro de 2011.
Ontem eu estava com medo. Medo da minha felicidade.
Depois de tanta coisa ruim, difícil, sofrida, será que eu serei feliz novamente? Digo, realmente feliz? Sem dor? Sem medos? Sem traumas?
Pelo menos receio de ser feliz eu sei que eu tenho.
Chego em casa hoje e vejo a notícia mais comentada, a morte de S. J. após tantos anos lutando contra a “doença maldita”.
Não importa a cor, raça, sexo, religião, nacionalidade, situação financeira. Quando o Papai do Céu chama, vai ele, vou eu, vai você,...pode ser rico, famoso, inteligente ou o que quer que seja.

Saber que a maioria, luta, luta, luta e acaba se rendendo...é inevitável o que eu estou sentindo agora.
Agora que a tempestade acalmou e eu estou só “no aguardo”, comecei a indagar o meu futuro.
Será que serei uma daquelas pessoas que teve a tal doença quando jovem, sofreu, mas ficou curada para sempre?
Ou será que eu vim aqui para vencer muitos obstáculos e, com isso, deixar alguns ensinamentos para os que ficarão?
Sei lá...ultimamente tenho acreditado mais na segunda hipótese.
Enquanto eu espero o final dessa história, agradeço a Deus todos os dias quando eu acordo pela minha vida linda e minha saúde! E quando vou dormir, peço para acordar no próximo dia com mais saúde do que tive aquele dia que acabou e sempre conto para Ele que eu amo muito viver e se Ele me deixar, irei aproveitar da melhor forma esse presente que recebi.
Ahhh....e nunca deixo de lembrá-lo do meu maior sonho: ter muitos filhotes lindos e amados!
Só que hoje, não irei rezar apenas para mim...

domingo, 2 de outubro de 2011

Uma espera demorada e sofrida.

Boa noite!
Domingo passado eu fiquei horas escrevendo e, após reler pela última vez o meu texto, não tive coragem de clicar no botão “POSTAR”.
Estava muito chateada e quase determinada a abandonar a quimioterapia, mas como as coisas passam, e para mim além de passarem eu acabo esquecendo, não me lembro o porquê da minha breve revolta.
 Acredito que o fato de no dia seguinte ser o tão temido dia da aplicação meus sentimentos estavam à flor da pele, além da minha impaciência em relação ao tratamento.
E assim aconteceu. Na segunda-feira fui à clínica e não vou negar: doeu menos do que da última vez, mas os efeitos não mudaram...acabei indo para a casa da minha avó depois e fiquei lá com enjôo, tontura e muita fraqueza.
Tudo isso já era esperado, porém surgiu um novo sintoma.
Naquele domingo eu fui almoçar com o meu namorado em um restaurante japonês!  Fazia MUITO tempo que eu não me acabava de comer no rodízio: sushi, sashimi, guioza, shimeji, e tudo mais o que eu tinha direito.
Quando estávamos indo para o carro eu comecei a sentir pontadas exatamente na região da cicatriz (onde ficava a colostomia – bolsinha). Não dei muita importância e continuei andando, até que no meio da faixa de pedestres, parei. Não conseguia dar nem mais um passo.
Ele me ajudou a terminar o percurso e foi buscar o carro.
Era uma pontada tão forte que eu não conseguia me mover.
Entrei no carro, sentei, encolhi as pernas e logo passou. Foi tudo muito rápido, porém muito intenso, mas não quis ligar para o médico, pois imaginei que ele fosse me mandar ir até o consultório e não devia ser nada preocupante.
No dia seguinte, o dia “tão temido”, quando os efeitos ruins da quimio estavam amenizando, eu senti a mesma dor, só que dessa vez eu estava sentada e as pontadas vieram e foram embora após uns 05 minutos.
Naquele momento não pude ignorar o que eu estava sentindo. Liguei para o médico na hora e ele me pediu para ir até lá no dia seguinte no primeiro horário e nós fomos, eu e meu pai.
Como eu já havia previsto, ele me examinou e pediu um ultrassom da região abdominal, isso por que eu tenho que evitar exames como ressonância e tomografia, devido à grande quantidade de radiação que fui submetida ao longo desse ano.
E que ano, não é? Dou risada quando lembro que durante o ano de 2010, reclamei inúmeras vezes de diversos acontecimentos e sempre dizia: Ainda bem que ano que vem será ano ímpar!!! Não gosto de ano par... anos ímpares são sensacionais!!!
HA HA HA!!! Que ótima piada.
Confesso que passei a metade desse ano reclamando, até que o meu pai me fez enxergar tudo de outra forma. Me disse que 2011 foi o melhor ano da minha vida. Por que???
Porque eu diagnostiquei uma doença horrível e após muita luta, venci a guerra e hoje estou 100% curada. Ele disse que o ano da doença foi 2010 e esse ano, 2011, foi o ano da cura.
Depois disso eu passei a acreditar que 2011 foi o ano da minha GRANDE CONQUISTA: A MINHA MARAVILHOSA VIDA!!!
Agora sem preconceitos. Gosto de todos os anos e independente dos probleminhas, o importante é ter SAÚDE!
Voltando ao exame, consegui agendar somente para o dia 10 de outubro, segunda-feira que vem. Ou seja, o próximo final de semana será um “daqueles” com muita ansiedade: quimio + exame!!!
Mas eu estou tranqüila! Apesar de ter sentindo essa dor algumas outras vezes no decorrer desta semana, acredito que não seja nada além do meu intestino se adaptando às novas dimensões.
Mesmo com esse incômodo, passei muito melhor essa semana do que às outras por um motivo simples e óbvio: a cada duas semanas de remédio (quimioterapia em comprimidos) descanso uma! Ou seja, passei essa semana sem remédios e notei que meu corpo não está tão ruim quanto parece...são os comprimidos que deixam ele assim.
A trégua foi boa só que amanhã volto à rotina do remédio, mas dessa vez, acreditando que cada um que eu ingiro, estará entrando no meu organismo para destruir as possíveis células “do mal” que podem ter insistido em habitar o meu lindo corpinho.....Rs!!!
Após a minha descrença do domingo passado, eu decidi que se vou fazer esse tratamento chato por 06 meses, irei fazê-lo com FÉ e acreditando no resultado positivo que esse sacrifício irá me trazer. Sim, sacrifício!
O fato é que eu conto quase tudo aqui, só que muitas das minhas dores, das minhas aflições, meus medos e meus receios, eu guardo para mim. Até as pessoas que acham que sabem o que se passa comigo, sinto lhes informar: Vocês não sabem nem 10% dos meus reais sentimentos.
E a verdade é que eu estou casada!!! Imaginem uma batalha onde você luta com todas as suas forças até o final, quando você vence, e quando já está totalmente exausto, te dizem que terá que permanecer no campo de batalha pelo dobro do tempo que você já está lá.
É essa a minha sensação. Ganhei a batalha mas estou lá, esperando algum adversário voltar para combatê-lo.
Muito difícil. Mas é melhor esperar mais um pouco do que começar do zero novamente. Certo?